Claudemir Julho: O professor
qua, 07/10/09 por monet | categoria Projeto Generosidade 2009 | tags Claudemir Julho, Sociedade Esportiva Juventude, treinadorPor Humberto Peron
Claudemir Julho mantém sozinho um time de futsal feminino em São José dos Campos, interior de São Paulo. Em 20 anos, o treinador já ensinou os segredos do futebol para mais de mil garotas
Dizem que o futebol é o esporte mais democrático que existe. Mas essa afirmação só é válida quando falamos da modalidade praticada pelos homens. No futebol feminino, o jogo muda. Exceto por algumas ligas organizadas em certos países da Europa e nos Estados Unidos, as mulheres ainda sofrem um bocado quando escolhem chutar uma bola como profissão. Essas dificuldades são reveladas em dois documentários que o GNT exibe este mês. Driblando Obstáculos – Futebol Feminino no Afeganistão mostra como as atletas precisam vencer as rígidas restrições de direitos e liberdades que são impostas às mulheres no país do Taleban.
Mas outra produção escancara a situação de nossas próprias meninas. Deixa que Eu Chuto retrata a dura realidade das jogadoras que tentam fazer carreira no país que é conhecido por ter o melhor futebol, não importa o sexo, do mundo.
Um dos nossos grandes problemas é que ainda faltam escolinhas, ainda mais para as meninas carentes. Na cidade industrial de São José dos Campos, distante 90 km de São Paulo, encontramos um exemplo de amor ao futebol feminino e a prova de que muitas vezes não são necessários grandes planos para se fomentar o esporte. Há 20 anos o aposentado Claudemir Julho, com a sua Sociedade Esportiva Juventude, faz com que as meninas do bairro de Parque Novo Horizonte tenham a oportunidade de aprender e jogar futsal. “No começo era apenas uma brincadeira. Eu e mais três amigos começamos a treinar meninas. Não tínhamos nenhuma estrutura. Para as atividades, só contávamos com uma bola furada.”
Depois de mil meninas terem passado pelo Juventude, infelizmente é possível dizer que pouca coisa mudou. Atualmente, Claudemir cuida sozinho do clube. Apesar de poder usar as quadras das escolas públicas da região, ele precisa arranjar dinheiro para comprar os uniformes e bolas para o time com os comerciantes da região. Quando isso não acontece, o treinador é obrigado a gastar de seu próprio bolso ou a fazer um rateio com os pais das atletas.”Não rejeito nenhuma menina que queira treinar”, afirma Claudemir. Mas o professor exige que todas as suas jogadoras estejam matriculadas na escola, que não faltem às aulas e tenham um bom aproveitamento, sem se esquecer do comportamento. Se tudo isso não acontecer, a aprendiz é afastada dos treinos.
SUPERAÇÃO – A própria história pessoal de Claudemir serve de exemplo para suas jogadoras. Vítima de paralisia infantil, ele se desloca numa cadeira de rodas pelo bairro. Em tempo: para chegar ao local dos treinos precisa enfrentar uma ladeira íngreme. Além das orientações táticas e da preocupação com a formação das meninas, ele não se cansa de dar conselhos. Durante os treinos, conversa com suas jogadoras de forma calma, sempre chamando cada garota pelo nome. “Não me importo em revelar craques, o meu objetivo é ajudar na formação das meninas”, diz. Ainda assim, uma das revelações do Juventude, a zagueira Gislaine, já vestiu a camisa da seleção brasileira.
Apesar de o Brasil haver revelado a melhor jogadora do mundo, a unanimidade Marta, Claudemir é testemunha de que algumas meninas ainda sofrem preconceito por jogar futebol. “Melhorou muito, mas ainda hoje preciso conversar com alguns pais para deixar as meninas treinarem. Alguns ainda ficam surpresos com um time de garotas”, afirma o técnico. Vencendo o preconceito e as dificuldades, Claudemir sabe que, a cada treino, mais do que ensinar a bater na bola ou marcar o adversário, ele está dando uma lição de vida para as suas meninas. E a maioria delas, nas últimas duas décadas, aproveitou muito bem.
Essa matéria faz parte do Projeto Generosidade 2009, que tem como objetivo revelar e repercutir ações e exemplos de gente que faz e promove o bem no Brasil. Todas as revistas da Editora Globo estão participando desta iniciativa. A ação mais votada receberá um prêmio de R$ 200 mil em dezembro. Participe!
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