
Nada de saudosismo. James Gandolfini garante que não sentirá falta de Tony Soprano, o personagem que fez dele um dos rostos mais reconhecidos da história da TV. “Depois de percorrer um longo caminho, o melhor a fazer é não olhar para trás’’, diz o ator de 45 anos, que desde 1999 seduz os telespectadores na pele do mafioso violento, corrupto e, ao mesmo tempo, irremediavelmente humano. “Já estava na hora de aposentar Tony. Será um alívio parar de bater e de gritar com os outros diariamente.’’
A cara de poucos amigos, o olhar desconfiado e o jeito caladão até podem lembrar o protagonista da aclamada série “Família Soprano’’, do canal HBO. Mas Gandolfini é o primeiro a sugerir que tudo não passa de um mecanismo de autodefesa – provavelmente para encobrir a sua timidez. “Nunca me senti à vontade para falar de mim mesmo.’’ A seguir, os principais trechos da entrevista que o ator concedeu enquanto ainda rodava a sexta e última temporada da série, a quinta melhor de todos os tempos, segundo a votação de capa da revista MONET.
Pelo seu desempenho tão realista na pele de Tony Soprano, sente que intimida as pessoas nas ruas?
Sim. Durante uns três segundos aqueles que me vêem pela primeira vez costumam ver primeiro o personagem. Mas logo percebem que não sou tão durão quanto Tony. Se bem que eu já assustei um cara que batia à porta de um vizinho meu, no condomínio onde moro. Como ele esmurrava a porta, saí do meu apartamento irritado, vestindo só um roupão branco. E foi impagável ver a cara dele, quando me viu… Ele ficou imóvel e com uma expressão de pavor. Deve ter pensando que eu era o Tony Soprano (risos).
Como vai se despedir de um personagem tão intenso, com quem conviveu por tanto tempo?
Foram longos sete anos da minha vida, sendo nove meses por ano vivendo na mente problemática de Tony. Não estou reclamando. Até porque adoro os membros da equipe técnica e os atores com quem trabalho. Nós nos divertimos muito. Não trocaria por nada nesse mundo a experiência que ganhei na série. No entanto, estou pronto para dizer adeus. Tony é um poço de raiva, o que me obriga a conviver com esse sentimento. E depois de um tempo confesso que sinto o peso de Tony nos meus ombros. Há ainda a sensação de que já fiz tudo o que podia no papel, já o explorei à exaustão. Também gosto muito do processo de pesquisa de novos personagens, o que me permite abrir meus horizontes. Quero partir para outra.
Como explica o sucesso de “Família Soprano’’, uma série vista em mais de 40 países?
O roteiro é inteligente e muito bem escrito. São situações reais e não situações criadas especialmente para TV. O público conhece a diferença.
O que espera profissionalmente da fase pós-“Família Soprano”?
Não espero muito. Só quero ter a chance de fazer o trabalho que me interessar. Se fizer dois filmes por ano, ótimo. Não importa que sejam filmes pequenos. Só quero me manter ocupado, mas sem precisar passar nove horas por dia na pele de um personagem só. Todo ator que já trabalhou em seriado com exibição de uma hora por semana sabe como a nossa rotina é intensa e estressante.
Acha que ficará estigmatizado no papel do chefão mafioso?
Antes de “Família Soprano’’, recebia ofertas diversificadas. Porém, não eram muitas. Agora o número de convites aumentou. O problema é justamente o estigma. Surgem muitas ofertas para encarnar tipos valentões e complicados.
Tony Soprano não deixa de ser um personagem engraçado… Isso não lhe abre portas para atuar em comédias no cinema?
Dificilmente. Até porque Tony só tem graça de tão miserável, obscuro e atormentado que ele é (risos). Coitado…
A exemplo do personagem, já fez terapia?
Não. Mas aposto que me faria bem…
O que já tem engatilhado profissionalmente? Algo que fuja da violência talvez?
Minha produtora está associada ao canal HBO para a realização do documentário “Occupation Iraq’’, sobre os soldados que vivenciaram a guerra. Como ator, estou envolvido no projeto de uma cinebiografia sobre Ernest Hemingway, onde interpreto o escritor. Espero ter a chance de mostrar uma faceta nova, a de um autor mergulhado num tumultuado romance com uma correspondente de guerra (Martha Gellhorn), nos anos 30 e 40. A violência daqui nem se compara à de “Família Soprano’’. Isso, porém, nunca me incomodou muito na série. Acho que em 99% dos casos, ela é justificada. E sempre há conseqüências.
Qual o sentimento que levará de “Família Soprano’’?
Sinto que fiz um bom trabalho e aprendi muito. Principalmente sobre mim mesmo. Não me considerava um ator profissional quando iniciei a série. Talvez eu ainda não seja. Mas agora estou pelo menos mais perto.
por Elaine Guerini, de Los Angeles